Com razão se costuma dizer que um problema bem posto é problema meio resolvido. E o contrário também é verdade. Ora, definir bem um termo tem grande analogia com pôr bem um problema: a correcta definição dos termos que usamos é condição indispensável para a adequada abordagem e debate de qualquer tema. A ponto de Jaime Balmes ter podido dizer, com alguma dose de optimismo: si definimos no discutiremos. Bem o sabiam os escolásticos, que por esse motivo faziam preceder qualquer disputa pela fase ad terminos, na qual todos os termos que iriam utilizar eram cuidadosamente definidos. A história da Ética dá-nos a conhecer alguns casos confirmativos, verdadeiramente exemplares, tanto da importância das definições exactas como das consequências negativas e dificuldades levantadas pelas formulações incorrectas. Dois desses exemplos serão aqui lembrados: os dos problemas com que os moralistas se tiveram de confrontar em consequência das deficientes definições de mentira e mutilação. A definição de mentira que vigorou durante séculos no mundo ocidental foi a que propôs S. Agostinho, primeiro e quase único autor da Antiguidade a estudar desenvolvidamente o tema. Este apaixonado pela verdade preocupou-se seriamente com a mentira, e não apenas por ela ser o oposto da verdade: também porque a sua própria concepção de mentira e, consequentemente, a definição que dela propôs, não se lhe apresentava isenta de dificuldades.
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