As ciências da educação, em Portugal, estão naquela fase, por que passam algumas pessoas, em que têm dificuldade em aparecer em público, seja porque todos as atacam e culpabilizam por vários problemas por elas supostamente gerados, seja porque não sabem bem que postura hão de assumir no espaço público (que sorriso apresentar, onde colocar as mãos, como sustentar as costas, que dizer…). Como sabemos, há uma opinião muito publicada, embora bastante restrita, que atribui às ciências da educação a responsabilidade por todas as dificuldades que afligem a educação escolar em Portugal, em particular pelos maus resultados escolares, pela indisciplina, etc. etc. Como é muito publicada, esta opinião é muito difundida entre quem lê o que se publica, ou seja, a grande maioria da elite dirigente. Convém por isso, aproveitar este espaço editorial para tecer algumas considerações sobre esta questão. Afi nal somos a Revista Portuguesa de Investigação Educacional. Claro que podemos começar pelo lado mais absurdo. Ou seja: como sabemos, as ciências do Direito são responsáveis pelo facto de haver milhares de processos que prescrevem nos tribunais e em cima das mesas dos juízes, sem que se faça justiça, e por termos de esperar seis anos ou até dez pelo fi m de um processo. Como sabemos também, as Ciências da Saúde são as principais responsáveis por haver fi las de espera nos hospitais, longas de anos, para aguardar, por exemplo, uma simples, mas decisiva, intervenção cirúrgica, também são responsáveis pelos erros praticados pelos médicos, seja de diagnóstico seja de terapêutica, erros esses de que todos temos conhecimento empírico. A Economia, como ciência, é claro que é responsável pela grave crise financeira e económica que vivemos hoje. As várias áreas científicas são as responsáveis, como se sabe e à falta de melhor argumento, por tudo o que vai acontecendo de mais dramático na nossa sociedade. A ignorância sempre foi muito atrevida. E, por vezes, vive aconchegada na loucura. As ciências da educação não são a pedagogia e a pedagogia não é a ciência da educação; a didáctica não equivale às ciências da educação e as ciências da educação não são a didáctica. As três constituem, a par da política pública de educação, os pilares de compreensão do fenómeno do desenvolvimento humano
em contexto escolar, embora apresentem importantes diferenças entre si. Para simplifi car, poderemos dizer que a pedagogia é o eixo principal: ela aborda toda a actividade humana desenvolvida por uma dada pessoa com o objectivo de ajudar uma outra a desenvolver aprendizagens. É, por isso, uma acção muito presente no contexto escolar, mas não exclusivamente aí, também está presente na família, na sociedade, nas Igrejas, nos grupos culturais e nas associações recreativas, nos media, nos mais diversos grupos e contextos sociais. É uma acção complexa, que é determinada por valores e por convicções e hipóteses acerca do desenvolvimento de cada pessoa, isto é acerca do desenvolvimento humano: como é que uma pessoa se revela aquilo que é e se torna aquilo que almeja ser? Como é que cada pessoa percebe e constrói um modo de estar no mundo, no seio de uma dada comunidade? O pedagogo é um prático, um profi ssional de terreno, e a pedagogia é uma acção que envolve e compromete sempre um pedagogo e um aprendente, numa relação e com uma fi nalidade de desenvolvimento humano, num dado contexto
social, envoltos por dinâmicas sociais (familiares e comunitárias) que lhes proporcionam um dado ambiente de facilidades e de constrangimentos. O saber do pedagogo é sobretudo baseado na experiência, é um saber praxiológico que remete para uma filosofia e uma ética acerca da educação e do ser humano. A didáctica procura compreender os processos de ensino e aprendizagem de cada disciplina, desde os conceitos e princípios que devem transformar-se em conteúdos até às diversas dificuldades que os aprendizes revelam na compreensão e aquisição dos saberes. O cientista da educação procura melhorar o conhecimento que existe acerca dos fenómenos que influenciam a acção educativa. As ciências da educação produzem inteligibilidade sobre o acto educativo, as acções e os actores. Como diz Meirieu, as ciências da educação procuram articular três pólos: um axiológico, que mobiliza a filosofia e a reflexão política, outro científico, que mobiliza os conhecimentos elaborados pelas ciências humanas (psicologia, sociologia, linguística, economia,...) e pelas ciências experimentais (biologia,...) e outro praxiológico
que remete para a instrumentação e para a regulação da acção educativa. Os três, pedagogos, didácticos e investigadores em ciências da educação estão convidados (pode haver quem diga condenados) a cooperar, para se poderem conhecer mais profundamente as respostas, em cada momento histórico, às questões complexas do desenvolvimento humano e da emergência da humanidade de cada pessoa, da melhoria das aprendizagens e do sucesso escolar, da diminuição do abandono precoce e da melhoria contínua dos resultados escolares, do papel das famílias em cooperação com a acção educativa das escolas, ...É óbvio que os cientistas da educação não se envolvem directamente na acção pedagógica; antes a observam e sobre ela procuram construir um conhecimento científico sustentado em observação, estudo, comparação, experimentação, formulação de hipóteses, verifi cação. É uma acção muito humilde e bem diferente da dos pedagogos. Estes são, todavia, devedores do conhecimento
científico construído sobre a educação e o desenvolvimento humano. Há uma articulação óbvia e uma interdependência necessária, para bem da qualidade dos processos e dos resultados da educação. Neste contexto, seria bom que a formação dos professores e formadores pudesse ser profundamente revista à luz destes pilares e das suas relações. E esta é uma questão política, ou seja, que os interessados (não apenas os professores, mas sobretudo os pais) devem debater no espaço público. O que está a correr mal, e bem mal, é o rumo das políticas públicas de educação, não é o rumo das ciências da educação (onde haverá certamente muitas coisas a melhorar). Quem importa e aplica modelos e modas educacionais, são os políticos, quem opta por esta e não por outra medida de política, são os políticos, quem envolve ou atropela os actores sociais da educação e os retira do espaço
público da educação, são os políticos. Quem controla todo o sistema nacional de educação de forma centralizada, burocrática e estatista, são os políticos. Já era tempo de haver um pouco mais de bom senso. A Revista Portuguesa de Investigação Educacional continua, regularmente, a sua tarefa de divulgar conhecimento produzido em Portugal neste campo difícil e apaixonante da educação.
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