Recordando a entrevista… à Professora Doutora Isabel Capeloa Gil

O tempo passa, as boas memórias ficam
Professoras e professores da UCP recordaram livros e leituras no âmbito da iniciativa “Os Melhores Livros. As Melhores Leituras” promovida pela Livraria UCP entre 2013 e 2015.
Algumas dessas entrevistas são agora recuperadas pela UCP Editora.

Recordando a entrevista… à Professora Doutora Isabel Capeloa Gil Reitora da Universidade Católica PortuguesaProfessora Catedrática da Faculdade de Ciências Humanas da UCP

As memórias que tem de infância estão associadas a livros?

Desde pequena que me lembro, primeiro, de ouvir histórias e depois, através da leitura, de tentar descodificar a arca de segredos que os livros representavam para mim. Os meus brinquedos favoritos eram os livros.

Acha que a leitura teve e continua a ter um papel importante na sua vida?

Sem dúvida, houve uma evolução profissional que dependeu da leitura científica - que ainda hoje é constante. Leio todos os dias, em doses maciças, artigos, publicações e textos científicos. Mas essa obrigação profissional não impede que, quando chega a noite, eu não necessite de continuar a ler. Apesar de, por vezes, ser difícil devido ao gosto que também tenho pela imagem e pelo cinema. A última coisa que costumo fazer antes de me deitar é ler.

Quais são as obras que considera terem sido as melhores leituras que já fez?

É difícil responder, porque cada obra que leio apaixona-me. Por diversas razões: seja pela estética do texto, pela profundidade das questões que levanta, pelo imaginário que envolve…

Mas se fizer um percurso pelos livros que me marcaram tenho de destacar uma obra de Léon Uris, Mila 18, que na infância me despertou para a realidade de uma violência atroz durante a II Guerra Mundial.

Um outro livro que para mim é fantástico e que continua a ser um marco na literatura mundial é o Fausto, de Goethe; depois, a literatura de Virginia Woolf, que me consciencializou para a evolução que houve quanto à posição da mulher criadora na sociedade.

Por fim, posso destacar Thomas Mann, sobretudo em três obras que para mim são marcantes: a trilogia José e os Seus Irmãos, e depois A Montanha Mágica e ainda o Doutor Fausto.

E qual o autor que destaca?

Como pensador, Walter Benjamin. É um autor dotado de uma grande sensibilidade para as questões da modernidade e do progresso, da visão e dos pressupostos culturais, e que eu leio e releio vezes sem conta.

Como ficcionistas, tenho de falar de três. Thomas Mann, certamente, porque fez um grande diagnóstico do seu tempo. Foi no fundo um cronista da modernidade, sobretudo da primeira metade do Século XX, que debate através de uma escrita conservadora na forma, mas muito moderna no modo de ver o mundo, as tensões entre o progresso, a crença na racionalidade ou a medicina e os valores tradicionais.

Depois, uma autora austríaca que é a Ingeborg Bachmann, com a qual fui confrontada pela primeira vez quando estava a iniciar os meus estudos académicos e que nunca me largou, sobretudo com um romance chamado Malina e que caracteriza o assumir da identidade feminina.

Finalmente, um autor americano, que foi o que mais me marcou nos últimos cinco anos, que é Jonathan Littell. O livro As Benevolentes é uma obra brutal e perturbadora, que diagnostica a obscuridade da alma humana através da narração do Holocausto pela perspetiva do carrasco. Foi um livro muito envolvente e que gostei imenso de ler.

Se tivesse que escolher um livro, qual recomendaria?

Não um, mas dois!

Um Quarto Só Para Si, da Virginia Woolf, que é um ensaio acerca das mulheres como criadoras e da aceitação da mulher enquanto intelectual no contexto da sociedade profundamente patriarcal dos anos 20.

O outro é A Montanha Mágica, de Thomas Mann. O livro conjetura a I Guerra Mundial no contexto entre guerras. Percebemos através da leitura que o texto é, ao mesmo tempo, uma antecipação da II Guerra Mundial, e o autor faz um grande diagnóstico das tensões sociais e das pulsões emocionais, da “psiqué” e da mente, que são questões fundamentais para compreendermos o ser humano.  

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