O futuro do eBook

Breve história do livro eletrónico

Um eBook, ou livro eletrónico, é um livro em formato digital que pode ser lido no ecrã de um dispositivo eletrónico. Saiba como nasceu e o que esperar do mercado de eBooks.

Quem criou o conceito do “livro sem papel”?

Terá sido no já distante ano de 1930 que o escritor americano Robert Carlton Brown (Bob Brown; 1886 - 19591) idealizou um inovador transportador de material de leitura que permitiria que a literatura acompanhasse as práticas de leitura avançadas de um público que começava então a assistir ao cinema sonoro2. Chamou-lhe "The Readies" por analogia a "the talkies", a expressão criada para designar os filmes sonoros. Bob Brown chegaria mesmo a publicar um ensaio intitulado "The Readies" no jornal literário Transition3, explicando que a palavra “readies lhe evocava um espetáculo em movimento, de leitura à velocidade do dia com a ajuda de uma máquina, um método de desfrutar da literatura de uma forma tão atual quanto os animados talkies"4. Isto foi há quase um século e já nessa altura Bob Brown chamava a atenção para o medievalismo do livro como suporte de leitura, que estava “a cambalear sustentado na sua última perna e prestes a cair”5. Contudo, sabemos que isso não aconteceu.

O que aconteceu, então, para que o livro eletrónico passasse da teoria à prática?

Os livros mantiveram até hoje um papel fundamental na transmissão de informação, mas a visão de Bob Brown perdurou e acabaria por se concretizar 40 anos mais tarde, quando a Internet começava a crescer e a primeira mensagem de e-mail era enviada, com apenas três caracteres, entre dois computadores de rede6.

Avanços tecnológicos decisivos para o eBook

A 2 de setembro de 1969 foi estabelecido o primeiro nó de ligação entre dois computadores da Arpanet (rede da Advanced Research Projects Agency, financiada pelo governo norte-americano).
A 29 de outubro de 1969 foi enviada a primeira mensagem de correio eletrónico entre dois computadores ligados em rede que se encontravam em locais diferentes.

A publicação do primeiro eBook

Foi, portanto, nesse contexto de grande e acelerada evolução tecnológica que nasceu o primeiro livro eletrónico, inicialmente designado como “Electronic Text” (Etext)7 e hoje mundialmente conhecido como eBook. Tudo aconteceu por obra do acaso, como é normal nas grandes inovações científicas e tecnológicas, quando Michael Hart (1947-2011) foi autorizado a operar um computador mainframe Xerox Sigma V no Laboratório de Pesquisa de Materiais da Universidade de Illinois, nos EUA, recebendo uma conta de operador equivalente a cem milhões de dólares americanos (100 000 000 USD) em tempo de computador. Hart poderia fazer o que quisesse com esse tempo “livre” naquele computador potente que lhe permitia processar grandes quantidades de dados, mas não sabia bem como usar aquela preciosa oferta. Contudo, demoraria apenas cerca de duas hora a concluir e a anunciar que “o maior valor criado pelos computadores não seria a computação, mas sim o armazenamento, a recuperação e a pesquisa daquilo que estava armazenado nas nossas bibliotecas”8. De imediato meteu mãos à obra e começou a datilografar a “Declaração de Independência” dos Estados Unidos, criando o seu primeiro texto eletrónico que enviou depois para todos os contactos das suas redes.

A “Declaração de Independência” dos EU disseminada  por Michael Hart a 1 de dezembro de 1971 é considerada o primeiro livro publicado em formato digital. 

Hart terá depois afirmado que ganhara os seus cem milhões de dólares porque, no futuro, acabaria por haver uma cópia da “Declaração de Independência”9 nas bibliotecas digitais de cem milhões de utilizadores de computadores.

A primeira biblioteca de eBooks

A primeira biblioteca de textos eletrónicos foi, de facto, a do Projeto Gutenberg, iniciado em 1971 por Michael Hart com base na premissa de que qualquer coisa que possa ser inserida num computador pode ser reproduzida indefinidamente, o que permitiria disponibilizá-la o número de vezes que fosse necessário neste mundo ou até fora dele (dada a transmissão via satélite). Com base neste conceito, a que Hart chamou de “Tecnologia Replicadora”, os Etexts criados pelo Projeto Gutenberg teriam de ser publicados nas formas disponíveis em cada momento que fossem as mais simples e fáceis de usar10.

O Projeto Gutenberg e a filosofia por detrás dos Etexts

Tal como havia acontecido com a invenção da prensa de tipos móveis por Johannes Gutenberg11, que permitiu imprimir numerosos exemplares de um mesmo livro e disseminar informação em grande escala, o Projeto Gutenberg tinha como objetivo disponibilizar informações, livros e outros materiais ao público em geral em formas que a grande maioria dos computadores, programas e pessoas possam facilmente ler, usar, citar e pesquisar, tudo isto de forma acessível ou gratuita. O projeto mantém-se vivo e celebrou o seu 50.º aniversário em 202112. Conserva a filosofia de disseminação em formato digital de obras que já tenham entrado no domínio público, que possam interessar a 99% da audiência, a custo irrisório e num tamanho suportado pela generalidade dos meios padrão existentes em cada época. A sua biblioteca disponibiliza atualmente mais de 60 000 eBooks13 gratuitos.

Quais foram as fases marcantes do desenvolvimento do eBook?

Entre o arranque em 1971 e a situação atual, o desenvolvimento do eBook apresentou cenários muito díspares nas diversas regiões do mundo e foi sendo construído ao ritmo que os avanços tecnológicos permitiram.

Esses avanços delimitaram as fases mais marcantes do desenvolvimento do livro em formato digital, entre as quais podem destacar-se:

  • 1990, John Galuskza, fundador da Serendipity Systems, criou um programa de visualização de eBooks chamado “PC-Book”14.
  • 1993, a BiblioBytes lançou uma plataforma de venda de eBooks pela Internet, tornando-se a primeira empresa a criar um sistema de operações financeiras para a net15, e a Digital Book, Inc. disponibilizou os primeiros 50 livros digitais em disquete16.
  • 1994, o formato em que os eBooks eram publicados mudou de texto simples para HTML e foi fundada a editora The Fiction Works especificamente para produzir eBooks17.
  • 1998, ocorreram três eventos importantes: foram lançados os primeiros leitores específicos para eBooks (“Rocket Ebook” e “Softbook”); foi emitido o primeiro ISBN para um eBook; a Google foi fundada18.
  • 1999, a editora norte-americana Simon & Schuster criou uma nova marca, a ibooks, e tornou-se a primeira editora comercial a publicar obras simultaneamente em formato eBook e impresso19. No mesmo ano, o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST) norte-americano realizou a primeira conferência sobre Livros Eletrónicos, com o objetivo de trabalhar com a indústria do setor para desenvolver voluntariamente normas, métodos de teste e bancos de ensaio para acelerar a proliferação e aceitação da publicação eletrónica20.
  • 2000 foi marcante pela publicação do romance Riding the Bullet, de Stephen King, exclusivamente em formato digital para leitura em computador através do software gratuito “Glassbook ebook reader”, lançado no mesmo ano. O livro podia ser descarregado por apenas dois dólares e meio e vendeu 500 000 cópias em 48 horas21. Ainda nesse ano, a Microsoft lançou o seu primeiro software de leitura de eBooks, o “Microsoft Reader”, e aliava-se à Amazon para impulsionar a venda de eBooks, enquanto a Gemstar lançava os novos leitores portáteis de eBooks, “RCA” e “RED 1100”, que permitiam armazenar até 10 eBooks e ainda artigos de revistas e jornais, nos quais o utilizador já podia adicionar marcadores, sublinhar passagens e fazer anotações22.
  • 2001, a Adobe lançou um novo software de leitura de eBooks, uma versão atualizada do leitor “Glassbook” que também permitia que o utilizador sublinhasse, fizesse anotações e adicionasse marcadores23.
  • 2004, a Sony lançou seu primeiro dispositivo eletrónico específico para a leitura de eBooks, o “Sony Librie”24.
  • 2007, a Amazon lançou o leitor “Kindle” nos EUA, impulsionando definitivamente o mercado dos eBooks25.
  • 2010 foi um novo marco na história do eBook, quando a Apple vendeu meio milhão de eBooks em menos de um mês após o lançamento do iPad com a aplicação “iBooks”, que permitia a compra e leitura de livros digitais naquele dispositivo móvel através da “iBookstore”26. A Amazon comunicava que, pela primeira vez, as suas vendas de eBooks tinham ultrapassado em quantidade as vendas de livros de capa dura nos EUA27. No final do mesmo ano, a Google lançou a “eBookstore” onde disponibilizava a maior coleção de eBooks do mundo, com mais de três milhões de títulos, dando assim início a um novo capítulo na sua missão de melhorar o acesso aos tesouros culturais e educacionais que conhecemos como livros28.

Evolução das vendas de eBooks

As vendas de eBooks continuaram a crescer em todo o mundo, mas especialmente nos EUA, onde aumentavam na ordem dos três dígitos e representavam cerca de 20% de todas as vendas de livros já no final de 2013, segundo dados da Association of American Publishers29. De acordo com os dados do estudo recente E-BOOK MARKET - GROWTH, TRENDS, COVID-19 IMPACT, AND FORECASTS (2022 - 2027)30 publicado pela Mordor Intelligence, o mercado de eBooks mantém-se liderado pelos países da América do Norte, mas estima-se que serão os países da Ásia e do Pacífico que maior crescimento apresentarão neste mercado. As previsões para o mercado global apontam para uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 3,62% nos próximos 5 anos (até 2026). De acordo com o mesmo estudo, a Europa registará um crescimento moderado e os países da América do Sul e de África apresentarão um aumento reduzido do mercado.

Evolução recente do mercado de livros eletrónicos

Nos dois últimos anos, o mercado foi impulsionado pelos períodos de confinamento decretados durante a pandemia da COVID-19, que bloquearam o acesso aos livros em papel e acabaram por promover a recetividade às alternativas de leitura em formatos digitais.

Este maior envolvimento geral do leitor foi observado em todo o mundo  quando as pessoas fechadas em casa procuraram nos eBooks uma nova fonte de entretenimento. 

Enquanto os livros físicos eram postos de lado, inicialmente devido ao encerramento das livrarias e depois aos atrasos nas entregas das compras feitas online, as vendas de eBooks aumentavam à medida que os leitores se habituavam à disponibilização cómoda e imediata31 da obra que desejavam ler.

Que fatores estão a impulsionar o mercado de eBooks?

Os principais fatores impulsionadores do mercado global de eBooks são os seguintes:

  • O desenvolvimento técnico e a sofisticação dos dispositivos de leitura recentes que proporcionam uma experiência de leitura semelhante à de um livro em papel.
  • A crescente utilização de smartphones e de equipamentos informáticos em todas as faixas etárias.
  • O acesso generalizado a serviços de comunicações eletrónicas e à Internet.
  • A facilidade de acesso a um vasto número de bibliotecas de eBooks através de aplicações ou de serviços online, que se apresenta como uma alternativa de baixo custo ao método tradicional de entrega de um livro em papel.
  • Os novos serviços disponibilizados aos compradores de eBooks, como a possibilidade de emprestar um livro digital (e-lending) e o acesso a recursos multilinguísticos (por exemplo, a um dicionário embutido).
  • As campanhas de proteção ambiental promovidas em todo o mundo, especialmente as que se destinam a travar a desflorestação e a reduzir o uso de papel.
  • A resposta rápida por parte das editoras, que têm vindo a expandir constantemente a sua oferta em formato digital.

Vantagens e desafios dos livros eletrónicos

Além da entrega imediata, os eBooks oferecem uma série de outras vantagens, já partilhadas na secção SOBRE NÓS do website da UCEditora, mas apresentam também enormes desafios no controlo eficaz dos direitos de propriedade intelectual, tal como acontece com inúmeros outros conteúdos artísticos e científicos disponibilizados em formato digital, e pressupõem um investimento na aquisição e atualização dos recursos tecnológicos, entre outros aspetos menos positivos que lhes podem ser apontados32. Apesar disso, o mercado está a consolidar-se globalmente e Portugal não deverá ser exceção.

O mercado do eBook em Portugal

Embora sejam poucos os estudos realizados no nosso país nesta área e não haja dados de mercado publicados (as vendas de eBooks em quantidade e valor por segmento e editora não são conhecidos), a evolução noutros países, nomeadamente na nossa vizinha Espanha33, permite acreditar que as editoras nacionais apostarão cada vez mais em lançamentos em formato impresso e digital ou apenas em formato digital, porque isso aumentará as suas vendas globais e permitirá reduzir o preço médio dos eBooks, o que resultará numa maior procura por parte do consumidor. A UCEditora também acredita no futuro promissor do eBook, por isso tem vindo a investir no aumento da sua oferta no mercado do livro eletrónico, contando à data da publicação deste artigo com 112 títulos editados em formato digital. Assim, tudo leva a crer que Portugal já tem as bases para que as vendas de eBooks possam crescer e vir a acompanhar a evolução observada noutros países.

Que fatores estão a impulsionar o mercado de eBooks em Portugal?

  • As gerações mais novas já recorrem regularmente a fontes de informação digitais, tanto para estudo como para entretenimento.
  • O uso de suportes de informação em papel está a reduzir à medida que a literacia digital aumenta (em 2021, 84% das famílias portuguesas tinham um serviço residencial de acesso à Internet34) e as compras online se tornam habituais.
  • Os custos de produção e transporte das matérias-primas e a crise global no setor da energia encarecem a produção do livro em papel, assim como de jornais e revistas35.
  • Os consumidores estão cada vez mais conscientes da necessidade de adoção de sistemas de produção e consumo sustentáveis (ODS 1236).

Expectativas para o futuro do eBook

Embora não possamos adivinhar o futuro, o cenário atual indica que os novos hábitos de consumo observados a nível mundial impulsionarão as vendas de eBooks. Acreditamos também que as editoras portuguesas irão ao encontro da crescente procura de livros em formato eletrónico. Por isso, a estratégia da UCEditora segue essa linha. Apesar de todas as dúvidas que possamos ter em relação ao que o futuro nos reserva, de uma coisa temos a certeza:

a certeza de que o livro será sempre o veículo privilegiado de transmissão de conhecimento e informação,  independentemente do seu suporte. 

Portanto, o que nos importa verdadeiramente é que o conteúdo das obras que publicamos tenha qualidade e que seja difundido de forma segura e fiável, contribuindo positivamente para melhorar a educação a nível global (ODS 437) e construir um futuro sustentável para todos os povos e o planeta38.

1 https://edinburghuniversitypress.com/bob-brown
2 https://www.historyofinformation.com/detail.php?id=2592
3 https://en.wikipedia.org/wiki/Transition_(literary_journal)
4 https://www.historyofinformation.com/detail.php?id=2592
5 https://www.historyofinformation.com/detail.php?id=2592
6 https://www.dn.pt/ciencia/tecnologia/o-primeiro-e-mail-foi-escrito-ha-40-anos-1401633.html
https://www.gutenberg.org/about/background/history_and_philosophy.html

8 https://www.gutenberg.org/about/background/history_and_philosophy.html
https://www.gutenberg.org/ebooks/1

10 https://www.gutenberg.org/about/background/history_and_philosophy.html
11 https://nationalgeographic.pt/historia/grandes-reportagens/3086-johannes-gutenberg-e-os-principios-da-impressao
12 https://www.gutenberg.org/about/background/50years.html
13 https://www.gutenberg.org/
14 https://www.theguardian.com/books/2002/jan/03/ebooks.technology
15 https://www.theguardian.com/books/2002/jan/03/ebooks.technology
16 https://govbooktalk.gpo.gov/2014/03/10/the-history-of-ebooks-from-1930s-readies-to-todays-gpo-ebook-services/
17 https://www.theguardian.com/books/2002/jan/03/ebooks.technology
18 https://govbooktalk.gpo.gov/2014/03/10/the-history-of-ebooks-from-1930s-readies-to-todays-gpo-ebook-services/
19 https://www.theguardian.com/books/2002/jan/03/ebooks.technology
20 https://www.nist.gov/speech-testimony/opening-remarks-electronic-book-conference
21 https://www.theguardian.com/books/2002/jan/03/ebooks.technology
22 https://www.theguardian.com/books/2002/jan/03/ebooks.technology
23 https://www.theguardian.com/books/2002/jan/03/ebooks.technology
24 https://govbooktalk.gpo.gov/2014/03/10/the-history-of-ebooks-from-1930s-readies-to-todays-gpo-ebook-services/

25 https://govbooktalk.gpo.gov/2014/03/10/the-history-of-ebooks-from-1930s-readies-to-todays-gpo-ebook-services/
26 https://govbooktalk.gpo.gov/2014/03/10/the-history-of-ebooks-from-1930s-readies-to-todays-gpo-ebook-services/
27 https://www.dn.pt/ciencia/tecnologia/amazon-vende-mais-e-books-do-que-livros-com-capa-dura-1622217.html
28 https://googleblog.blogspot.com/2010/12/discover-more-than-3-million-google.html
29 https://eu.usatoday.com/story/life/books/2013/05/15/e-book-sales/2159117/
30 https://www.mordorintelligence.com/industry-reports/e-book-market
31 https://www.mordorintelligence.com/industry-reports/e-book-market
32 https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/79418/2/102738.pdf 33 https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/79418/2/102738.pdf
34 https://www.apdc.pt/noticias/atualidade-nacional/portugal-tem-mais-iliteracia-no-acesso-a-internet-que-a-media-europeia
35 https://www.jn.pt/economia/preco-do-papel-enfrenta-uma-subida-vertiginosa-14338228.html
36 https://globalcompact.pt/index.php/pt/agenda-2030/94-objetivo-12-assegurar-padroes-sustentaveis-de-consumo-e-producao

37 https://globalcompact.pt/index.php/pt/agenda-2030/86-objetivo-4-educacao-de-qualidade
38 https://globalcompact.pt/index.php/pt/agenda-2030

Tag: eBook
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